top of page
  • White YouTube Icon
  • White Instagram Icon
  • White Facebook Icon
Design sem nome_edited.jpg

Embranquecimento

O mundo é diferente da ponte pra lá...

Nos EUA, os debates sobre raça serviram e servem até hoje como base para o modelo brasileiro de ações afirmativas. O Brasil e os EUA se assemelham muito quando falamos sobre questões raciais, porém as diferenças além de gigantescas, são importantíssimas.

 

Nos censos norte-americanos, a composição da população por meio da classificação de raça é dividida em dois termos: brancos e não-brancos, ou seja, optaram pela classificação binária.

 

Lá, os não-brancos não são caracterizados apenas por pessoas pretas, e sim, englobam todos os ‘mestiços’, frutos de qualquer combinação inter-racial existente.

Essa diferença ocorre, pois a segregação racial nos EUA é mais forte e mais rígida do que no Brasil e a razão disso se dá a um simples fato: na sociedade norte-americana a raça de um indivíduo é determinada pela ancestralidade. Ou seja, nos EUA, "pardo" também é negro.

 

E por que esses conceitos são diferentes em cada país?

 

Os dois países possuíram, ao longo de sua história, leis de embranquecimento distintas, que ajudaram a construir o cenário conflituoso da identidade negra em suas respectivas nações.

Em resumo, o embranquecimento se baseia no conceito de Eugenia, que defende a superioridade da raça branca em relação às outras raças.

Nos EUA, o conceito de Eugenia surgiu no século XIX e foi implantado através de uma lei do século XX, que durou até 1968. Denominada como “one-drop rule” (ou "regra de uma gota"), foi uma norma anti-miscigenação que proibia a união matrimonial de negros e brancos. 

 

Ainda segundo a legislação, todo americano com qualquer grau de ancestralidade africana, ou qualquer outra não-europeia, não era considerado branco. 

 

Já no Brasil, a Eugenia se instaurou através da “lei do embranquecimento”, também surgida no final do século XIX, mas criada para incentivar a mestiçagem.

Aqui, essa questão aconteceu durante o processo de transição do abolicionismo e com o incentivo do imperialismo europeu, e do capitalismo no país.

 

O plano de miscigenação no Brasil consistia, basicamente, em liberar a entrada de imigrantes no país em troca da união comprovada com alguma negra ou índia que aqui residia. Pensada como a "solução" para o excesso de negros, também eram prometidas terras e mão de obra barata aos homens estrangeiros. 

De acordo com o artigo “A diferença como prestígio: a representação social do branco no livro didático”, de Ana Célia da Silva, o desejo de transformar o Brasil com esse ideal hegemonicamente branco pode ser observado na lei de imigração brasileira instaurada em 8 de junho de 1890, que impedia legalmente o ingresso de negros e asiáticos no país.

 

Essa lei de embranquecimento mostra um ponto histórico muito relevante para a construção de uma discussão racial brasileira, e da identidade do nosso povo.

No livro “O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado”, de Abdias Nascimento, o autor também fala sobre a lei de embranquecimento, já no século XX.

 

Segundo ele, em 18 de setembro de 1945, foi assinado por Getúlio Vargas o decreto-lei nº 7.967, que regulava a entrada de imigrantes “de acordo com a necessidade de preservar e desenvolver na composição étnica da população as características mais convenientes da sua ascendência europeia”.

​​​

DECRETO-LEI_edited_edited.png

 

O decreto exigia que possíveis imigrantes se apresentassem pessoalmente ao cônsul para que o diplomata visse o candidato e relatasse se era branco, negro, ou se tinha alguma deficiência física. 

 

Naquele período, a alta classe da sociedade brasileira e muitos homens do governo, incluindo o próprio Getúlio Vargas, acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Acreditava-se que “bons” imigrantes, os imigrantes brancos, ao se integrarem à população não-branca, fariam com que o Brasil, em 50 anos, se transformasse em uma sociedade mais desenvolvida. Ou seja, muito mais miscigenada.

Embranquecimento

O caso real

A estudante de artes cênicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marina Affarez, de 22 anos, possui em sua família um caso real da lei de embranquecimento.

Sua tetravó, ou seja, a mãe da mãe de sua avó, viveu um caso de miscigenação extremamente violenta.

 

Indígena, porém com pai africano escravizado, a tetravó de Marina viveu em sua tribo durante toda a sua infância e adolescência. Marina conta como sua avó foi “laçada”, sequestrada de sua tribo, para longe de sua família, quando muito nova. A motivação para o crime seria obrigá-la a se casar com um homem branco italiano - hoje, o tetravô de Marina.

 

A história que a família sabe é de que o casamento funcionou como uma troca e que o  tetravô de Marina odiava ter se casado e tido filhos com uma mulher identificada como não-branca.

 

“A troca funcionava mais ou menos assim: a condição para que ele pudesse imigrar para o Brasil, já com um terreno e uma casa, era se casar com uma negra e reforçar o plano de miscigenação brasileira”, cita Marina.

 

EAT. ENJOY. SHARE. (2).png

Na foto, Rosana à esquerda e Marina à direita

 

Com o ocorrido, a família de Marina é mais uma das típicas famílias com diversas etnias espalhadas pelo país. Pelo lado de seu pai, todos os seus familiares são muito pouco miscigenados, todos com predominância negra e de ascendência africana.

 

Já sua mãe, Rosana, é descendente de índios, negros e italianos, e se auto-declara como uma mulher negra de pele clara. Porém, Marina conta que nem sempre sua mãe se identificou assim: Rosana se achava branca, pois tinha um tom de pele bem claro, traços muito finos e nariz bem afilado.  

Como nota-se, a percepção de Rosana mudou com o tempo, indo de mulher branca para mulher negra de pele clara, mas seus fenótipos e sua percepção inicial de si mesma, reforçava uma ambiguidade em sua cor/raça. 

Ou seja, no caso da família Affarez, o embranquecimento total por pouco não se concretizou, explicitando como a miscigenação passou a ser incentivada - objetivando o constante afastamento do passado preto e escravizado da população brasileira.

E qual é o ponto disso tudo?        

 

Há uma conclusão óbvia nessa discussão: ser mestiço nos EUA é estar mais próximo da sua ascendência negra e ser mestiço no Brasil, é estar mais próximo da sua ascendência branca.

 

Logo, fica mais compreensível o motivo pelo qual existe tanta complexidade ao tentar definir a classificação racial do pardo.

 

A classificação de pardos tem relação direta com a miscigenação e com a questão do embranquecimento, ou não, de uma população.​ E é necessário compreender todo um processo histórico para podermos aplicá-lo aos dias atuais e, mesmo assim, fica nítido como no Brasil raça e cor se confundem.

 

Estão aí para comprovar casos famosos como os dos jogadores de futebol Neymar e Ronaldo ou da cantora Anitta, que já negaram a ascendência negra, mas são vistos por cada brasileiro da forma que lhes é mais conveniente ou que se enquadre num padrão estereotipado de raça. 

 

E claro, essas avaliações vão tomar um rumo diferente quando se percebe regionalidades diferentes, classes sociais diferentes, famílias e criações diferentes e até mesmo, sexo e orientações sexuais diferentes.

 

E quando você mesmo não sabe o que é, e quando os outros tentam lhe dizer e isso muda a cada nova opinião, aí é que tudo fica mais complexo.

Embranquecimento

Ser ou não ser?

Gicelle Alves Souza Macedo, de 36 anos, é dona de um salão de beleza na zona sul de São Paulo. Nascida na cidade de Mascote, Bahia, ela mora em São Paulo há aproximadamente 10 anos e é mãe de três filhos.

 

As questões raciais nunca lhe foram uma questão de vida. Gicelle sabe que tem filhos negros, Gicelle sabe que não é uma pessoa branca, mas quando lhe perguntamos, o que você é, a resposta é direta: “na verdade, eu não sei o que responder. Eu me olho no espelho e não me encaixo. Não me vejo branca, não me vejo preta... Morena? Bom, talvez isso não exista... E me sinto assim, uma coisa meio indefinida”.

 

Na infância, o apelido mais comum “sarará” se dava ao fato de sua pele ser marrom com toque mais avermelhado e combinar com os cabelos cacheados e castanho-claros, quase vermelhos. “Eu odiava. Os meninos na minha cidade faziam muita chacota. E eu não entendia, nem sabia o que era ser ‘sarará’, ‘cabelo de fogo’. Eu queria morrer!”, ela conta.

Foi com quinze anos que Gicelle começou a alisar o cabelo e a tingi-lo de preto. “Achava que se eu pintasse o cabelo assim, as pessoas pelo menos iam começar a me chamar de morena. Morena, na minha opinião, é melhor, mesmo ainda não sendo uma coisa definida... Queria mais era fugir dessa coisa estranha, de não me encaixar com ninguém”.

O caso de Gicelle ainda levanta outro ponto: no Brasil, a classificação racial, de acordo com a perspectiva de outros, muda geograficamente.

 

Por questões históricas, o Sul do país possui uma população predominantemente branca. A cidade de Cunhataí, , por exemplo, localizada no estado de Santa Catarina, de acordo com dados do IBGE, é o único município do país que não registrou pretos em sua população no último censo.

 

Já no Nordeste, a predominância negra se acentua claramente no caso de Antônio Cardoso, na Bahia, pois se trata da cidade brasileira mais ciente de sua negritude. É o único município do país em que mais da metade de habitantes se autodeclarou preto no censo de 2010 (se somar os pardos, a porcentagem pula de 50,6% para 87%).

Gicelle cresceu justamente no estado da Bahia, que possui a maior concentração de pessoas negras, mas veio, como muitos brasileiros, morar na região sudeste. A mudança drástica a fez constatar que a percepção de outros em relação a ela e às suas características, tomaram rumos diferentes.

 

“Em São Paulo, eu sou diferente. As pessoas falam mais sobre a cor da minha pele, sobre como eu sou exótica e como eu tenho a cor do ‘pecado’”, revela.

 

Ainda por cima, a miscigenação de Gicelle também é questionada a partir de um ponto muito comum: o do desconhecimento.

Sua bisavó materna era indígena e fazia parte de uma tribo no estado do Ceará. Lá, ela deu a luz à avó de Gicelle, que foi levada embora da tribo ainda muito nova, por uma família baiana que a “adotou”. Por ser forçadamente distanciada de suas origens, Gicelle nunca considerou ou procurou saber sobre seu lado materno da família. 

 

 

 

 

 

Já em relação ao lado paterno, a microempresária não sabe ao certo. Por seu pai ter abandonado a família muito cedo, só tem certeza de uma coisa: que seu pai era um homem negro, de pele retinta. 

 

“Eu só havia o visto por foto e não tinha contato nenhum com a família dele... Quando me perguntam sobre a minha árvore genealógica, o máximo que posso dizer é sobre a minha avó sendo índia, mas também não sei que tipo de povo indígena, nem se tenho mais alguma mistura em meu sangue”, ela conta.

 

O caso de Gicelle se soma a todos aqueles que constroem esse mosaico de diferentes vertentes culturais e étnicas, que é o Brasil. 

 

Seria, de fato, muito mais simples somente aceitar que nossa etnicidade é realmente indefinível, subjetiva e que respostas concretas são inexistentes. Principalmente, em uma discussão que é muito baseada pela perspectiva individual de cada um.

 

O problema é que, como pontuado até o momento, faz parte da necessidade humana essa sensação de pertencimento e é em pessoas como Gicelle que a dificuldade mais se apresenta, pois a classificação não depende somente da forma como ela se enxerga, mas sim como a sociedade a vê.

“Eu gostaria realmente, de saber definir o que é o certo. Saber o que eu sou. Mesmo que não haja uma resposta certa, mas eu ter pelo menos uma ideia, um padrão”. 

Voltando para a primeira personagem apresentada na reportagem, a Ione, que passou a se autodeclarar como uma mulher negra, mas que desde então passou a ouvir de terceiros que “não era tão negra assim”, podemos perceber que mesmo se Gicelle soubesse se identificar, ainda existiriam pessoas que discordariam de sua ótica sobre si mesma.

Unknown TrackUnknown Artist
00:00

Amanda Ferreira Leite, de 24 anos e formada em produção editorial, sabe bem quem é e qual é sua cor/raça. O problema para Amanda está na percepção alheia. 

 

Em comparação a Gicelle, ela possui um tom de pele mais claro e é filha de mãe negra e pai branco. Amanda usa seus cabelos naturais, cacheados, desde muito nova. Por esse motivo, a percepção de outras pessoas em relação a ela torna-se um pouco mais concreta, pois o fenótipo negroide, de cabelo afro, funciona como uma espécie de auto afirmação de sua classificação.

 

Apesar disso, Amanda continua sendo constantemente questionada sobre sua declaração.

Ela conta sobre uma situação em que precisou renovar seu Registro Geral (RG), e que, como parte do procedimento, teve que declarar sua raça. Como sempre faz em situações do tipo, assinalou a opção “preta”, porém quando pegou em mãos a devolutiva de sua ficha, haviam alterado sua classificação para “parda”.

 

“Eu não falei nada, porque realmente não havia necessidade. Afinal, essa informação nem mesmo consta no meu RG, mas foi uma situação extremamente desconfortável”, revela. “A atendente me perguntou, eu me declarei e ela alterou porque quis. Porque me olhou, parou e pensou: ‘acho que não, eu te vejo como parda e assim será’... Mas então, qual é o sentido da auto declaração?”.

 

Dentro de sua casa, a situação não é diferente: sua mãe acredita veementemente que Amanda é uma mulher negra e sempre lhe incentivou a pensar assim; já seu pai, acredita que pelo fato de sua cor ser mais clara e sua miscigenação ser oriunda de uma geração próxima, ela é o que se chama de “morena”.

 

No caso de Amanda, a classificação parda se torna um problema, pois seus cabelos e seu biotipo são parte do que se julga por uma pessoa negra, pelo senso comum. Nas propagandas, na televisão e no cinema, quando retratam uma mulher negra, são exatamente tipos como o de Amanda que são retratados.

 

Usando o argumento de Juarez, o da perspectiva de maioria, porém, utilizar da classificação parda em pessoas como Amanda, é incluí-la dentro do que se considera “negro” no Brasil.

 

Porém, para Amanda, sua classificação como preta é um ato de resistência contra diversos momentos de preconceito velado pelos quais já passou.

 

"Se eu sofro discriminação na rua, porque as pessoas me acham preta, por que diabos eu não me classificaria assim? Eu vivo como uma pessoa negra, eu socializo como uma pessoa negra e eu sou vista como uma pessoa negra".

 

Amanda mora na região da zona Sul de São Paulo e, por ser uma jovem de classe média, costuma estar em lugares frequentados por uma predominância branca e de maior poder aquisitivo. Ela revela que constantemente recebe olhares tortos, tratamentos hostis e é diversas vezes ignorada, e acredita que se deve ao fato de ser “uma pessoa de cor”.

 

“Uma vez eu estava na praça de alimentação do Shopping Pátio Paulista, segurando uma bandeja com comida, que eu havia acabado de comprar. Uma mulher chegou e tentou colocar a bandeja dela sobre a minha, porque acreditava que eu trabalhava como faxineira ali”, relata.

 

Com a família por parte de pai, ela disse já ter vivenciado situações em que deixaram claro uma diferença de tratamento por não ser branca e o mesmo acontece em diversos momentos de sua vida, porque, segundo ela, o preconceito “é o seu dia-a-dia”.

 

O problema é que quando Amanda diz que é negra para as mesmas pessoas que, conscientes ou não, praticaram preconceito racial com ela, a devolutiva é de que ela não é negra, mas “no máximo, parda”.

“Quando alguém me diz que eu não sou negra, que eu sou parda, que eu não sou tão escura assim, isso não significa que essa pessoa genuinamente ache que eu não sou negra, isso significa que aquela pessoa se sente mais confortável acreditando que sou assim... Ninguém quer dizer que namora uma preta, que trabalha com uma preta, que convive com uma preta... E pior, uma preta que estudou, que sabe falar bem e que sabe se defender com argumentos concisos”, reclama.

 

O professor Carlos Machado classifica esse tipo de situação como uma decorrência do processo histórico que passou a ver a miscigenação como algo necessário, para se negar a negritude no país.

 

“O conceito de ser negro realmente não encaixa em um único estereótipo, porque ele muda com as relações inter-raciais. Então, quando você é negro e não está no que é considerado o ‘padrão’ do negro as pessoas tendem a dizer que você não é negro... Mas se o seu nariz é mais afilado, se sua pele é um pouco mais clara ou o seu cabelo é liso, você não é negro? Você é, mas aí entra a questão do colorismo e do embranquecimento”, explica.

bottom of page