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O ser pardo

Vamos frisar alguns pontos importantes: 

Desde o primeiro censo realizado no Brasil, no ano de 1872, o termo "pardo" vinha sendo utilizado para classificar pessoas de ascendência mestiça (índios, brancos e pretos). No ano de 1890, o termo foi substituído por "mestiço" e só voltou a ser utilizado no censo de 1940, permanecendo até os dias atuais.

 

A classificação dos pardos como negros consta no Estatuto da Igualdade Racial (EIR) para sua aplicação, mas não obriga o órgão a abandonar a distinção entre pardos e pretos em suas pesquisas.

De acordo com o professor e presidente da comissão de verificação da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp),  Juarez Tadeu de Paula Xavier, também existem níveis diferentes de organização social que vão de acordo com a tonalidade da pele de cada pessoa, portanto deve-se pensar nessa questão através de uma forma política, muito antes da forma social.

 

Segundo ele, o combate às questões raciais pode ser trabalhado a partir de duas perspectivas. A primeira, a da minoria, separaria pessoas consideradas “pretas” das “pardas”.

 

Imaginando esse cenário, em tese, o Brasil possuiria, de acordo com o último censo do IBGE, um percentual populacional de 8% de pessoas pretas (negras), enquanto que os pardos (mestiços) representariam 46% do total da população brasileira.

Seguindo essa lógica, imagine que as políticas públicas pontuais relacionadas ao racismo e a inclusão social do negro no Brasil, sejam voltadas apenas para esse percentual da população. Esses 8% seriam a parcela populacional amparada pelas políticas pontuais, como as cotas raciais e as ações relacionadas ao ativismo do movimento negro.

 

Vamos guardar essa informação por um segundo. Por enquanto, vamos imaginar que sim, negros e pardos são formas de classificação distintas e devem ser pensadas assim.

 

Como raça e preconceito são conceitos que andam lado a lado, voltemos para a questão do negro no país e às questões raciais, que Juarez fez questão de trazer à tona.

 

O racismo no Brasil é proibido pela lei, porém segue velado no espaço público e se abriga com força nos domicílios. Essa percepção pode ser sentida através dos ataques na internet, que partem de quem se sente protegido pelo anonimato e pelos mapas com a distribuição de raças, que mostram que brancos e negros possuem estatísticas diferentes.

Em relação ao preconceito racial no Brasil, Juarez pontua que o desafio dessa questão é dividido em três partes: “a primeira é o preconceito, que é uma visão pré-concebida do negro no Brasil; a segunda é a discriminação que trata-se da segregação física e espacial do negro, e a terceira é o racismo, que implica no alto índice de imobilidade da população negra”.

 

Para ele, esse combo resulta nos problemas atuais que vão contra o enfrentamento da segregação de raça: “O racismo é genocida, epistemicida, etnocida. É basicamente a destruição do outro”, diz Juarez, que também afirma acreditar que “trabalhar com uma perspectiva de minoria não é o meio mais eficaz para se tentar combater esses problemas sociais, que são, afinal, estruturais na sociedade”.

 

 

Isso nos leva a segunda perspectiva citada pelo especialista: a perspectiva de maioria. Nesse cenário, “pardos” e “negros” são classificados na mesma escala social e populacional. De acordo com a opinião de Juarez, convenientemente, os pardos seriam trazidos para a questão racial, como uma estratégia de percepção e de potencialização dos problemas raciais, para que se tome o desafio do racismo no Brasil, como um desafio de maior valia.

 

Juarez acentua o ponto de vista: “maioria é maioria. Parece-me que, historicamente, é necessário lidar com uma grande maioria para mobilizar essas questões estruturais e superar de forma eficaz todas elas”. 

 

Na teoria, pardo não é negro. Pardo é mestiço. 

 

Mas é possível acreditar que os mestiços só são considerados como negros para potencializarem a relevância das questões raciais? E, nesse sentido, não devem ser englobados a temas como consciência negra e racismo? Pode-se acreditar que não sofrem do mesmo tipo de discriminação racial que o preto de pele retinta?

 

Veja, são duas formas de se enxergar essa temática...

​O Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro, fundado em 2001 na cidade de Manaus, no Amazonas, tem sido crítico de políticas raciais e étnicas. Em seu site, eles classificam as medidas como as cotas raciais “mestiço fóbicas” e de “desmestiçagem”, e referem-se a elas como de natureza contrária à etnia mestiça e danosas à nacionalidade brasileira.

 

Para eles, pensar na política pública de maioria é ignorar "a defesa da etnia mestiça brasileira e seu povo, a valorização do processo de mestiçagem entre os diversos grupos étnicos, a promoção e defesa da identidade mestiça e o reconhecimento dos mestiços como herdeiros culturais e territoriais dos povos dos quais descendam”.

 

O órgão, inclusive, instaurou a “1ª Conferência Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Amazonas” contra o chamado “não-reconhecimento da identidade mestiça pelo governo federal brasileiro”.

 

Para Juarez, embora a opinião contrária seja natural e incentivada, e que pessoas “pardas” possuem óticas sociais divergentes das pessoas “pretas”, os “pardos” estão muito mais próximos da vivência “preta” do que da vivência “branca”.

“Hoje, quando dizemos que a maior parte das mulheres violentadas no Brasil é de mulheres negras, isso acontece porque juntamos as categorias pardas e pretas” afirma, observando que isso faz sentido porque as mulheres pardas estão mais próximas às mulheres negras, principalmente dos pontos de vista econômico, social, político, cultural e psicológico.

 

Stuart Hall, teórico cultural e sociólogo, defende em seus livros “Identidades culturais na Pós-Modernidade” e “Da diáspora: identidades e mediações culturais” que as pessoas são aquilo que elas querem ter como projeto político. Ou seja, como já falamos na reportagem, essa questão do “se identificar como uma pessoa negra” envolve muito mais do que uma simples identificação em um censo.

São vistas então, duas formas de se encarar essa questão, mas a certeza que conseguimos obter é que foi escolhido trabalhar com uma perspectiva de maioria, que unificaria os pardos e os negros, por uma questão unicamente política.

 

Unknown TrackUnknown Artist
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Tudo bem. Então isso significa que negros e pardos são a mesma coisa? E em outros lugares do mundo? Os pardos também são classificados como negros?

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