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Colorismo

Muito além da matiz de cor

O colorismo é um termo criado em 1982 por Alice Walker e que, basicamente, diz que uma pessoa negra de pele mais clara possui mais vantagens em relação a uma pessoa negra de pele mais escura, pois esta primeira consegue “transitar” e mesclar em alguns contextos como uma pessoa branca.

 

Ou seja, quanto mais pigmentada for a pele de uma pessoa negra, mais exclusão e discriminação ela sofrerá – e quanto mais clara sua cor for, mais vantagens ela possuirá (mas ela nunca será aceita como uma pessoa branca, de fato).

A doutora em História Social e consultora no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) nas áreas de Gênero e Educação, Giselle Cristina dos Anjos Santos, classifica o colorismo como uma questão que vem sido trazida desde o nosso passado colonizador.

“Nossa constituição foi realizada a partir de um discurso e de práticas sociais que tendiam a considerar a prática da miscigenação como um equívoco, que colocava os mestiços num patamar inferior ao do homem branco, mas que ao mesmo tempo, os colocava em lugares e lhes dava oportunidades que aos negros retintos eram negados”, detalha.

 

Para Giselle, enxergar a prática da miscigenação como um referencial positivo da identidade brasileira, é na realidade mascarar um processo de violência e de subalternização de corpos negros, em especial de mulheres negras. “A miscigenação foi e ainda é um processo historicamente ligado às práticas de relação de poder e à violência”, pontua.

 

Justamente por partir desse histórico em que, de alguma forma, a população não-branca de pele mais clara pôde possuir algumas vantagens sociais e foi intencionalmente incentivada, o número de mestiços é significativo em nossos censos populacionais.

Giselle aponta que é importante ressaltar que essas pessoas, que embora não sejam negras retintas e não estão no cerne das consequências que a discriminação racial traz, ainda sim, não possuem a posição de privilégio de pessoas brancas.

 

“Na maior parte das vezes, aqueles que não são brancos, mas que não são retintos, conseguem chegar a um patamar social superior, porém nunca são efetivamente incluídos, nunca estão totalmente numa condição em que podemos chamar de privilegiada”, afirma.

 

Giselle exemplifica o colorismo da seguinte forma: “imagine uma festa na qual pessoas negras de pele retinta são barradas na porta; porém, pessoas negras de pele mais clara, ou pardos, conseguem entrar. Ainda sim, essas pessoas jamais terão acesso a área vip da festa, porque não são brancas.”

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda a respeito do debate sobre colorismo, dentro do contexto brasileiro, que parte da lógica da miscigenação e está fundado a partir do discurso da identidade nacional, Giselle aponta como uma discussão ainda muito recente e que necessita de uma ótica mais profunda da sociedade como um todo.

 

Em sua perspectiva, partilhada por muitos movimentos em prol do ser negro, Giselle acredita que o termo mais adequado para o que se chama “colorismo”, é o da “pigmentocracia”.

“A pigmentocracia também fala sobre esse processo de estruturação da sociedade e como tendemos a privilegiar tonalidades de pele mais claras no lugar daqueles que são mais pigmentados”, explica.

A historiadora ressalta que o termo carrega um sentido político, histórico e sociológico mais forte e importante, do que o "colorismo".

 

“Ainda que a nomenclatura ‘colorismo’ seja muito importante e válida, principalmente por ter ganho maior espaço nos cenários de militância mais jovem, o conceito de ‘pigmentocracia’ traz na sua própria definição e etimologia o que é central: o aspecto da relação de poder que é pautado e que define o que favorece  ou desfavorece aquele que possui mais ou menos pigmentação”, enfatiza.

Conversamos sobre a temática do colorismo com Antônio Carlos Malachias, pesquisador do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro - NEINB/USP e coordenador do Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. De acordo com sua opinião, “é importante perceber que, embora seja um termo importado dos EUA, o colorismo se apresenta no país de uma forma diferente”.

 

Segundo ele, a maneira como tem sido feita a transposição do termo para o país pode gerar um entendimento equivocado do sentido em nosso cenário.

 

“As bases de construção de uma identidade étnico-racial no Brasil são construídas de forma diferente. Nos EUA, é o ser branco quem determina para o negro, que aquele não é o lugar dele, que ele está segregado dentro da sociedade. O modelo de dominação norte-americano se difere da nossa construção, a partir do próprio processo de colonização que, aqui, implica em relações entre os grupos étnicos ocorridas de forma forçada”, detalha.

 

O pesquisador volta a pontuar as questões de Eugenia e do histórico em respeito da miscigenação, que foi valorizada dentro de um processo de embranquecimento no Brasil e as relaciona diretamente ao colorismo ou pigmentocracia.

 

“Se entendermos o colorismo como uma ciência ou um comportamento pigmentocrático, em que os mais escuros são mais preteridos, ferimos o que está na essência da alma brasileira, que é a crença de uma sociedade homogênica”, ou para Antônio Carlos, essa forma de miscigenação é o que mais dificulta o nosso entendimento das relações raciais e da identificação do nosso povo.

 

“Pensar o colorismo no Brasil, com esse modelo racial tão particular, faz com que as pessoas com ancestralidade ou ascendência negra, sejam obrigadas a reivindicar a sua condição de negro, enquanto que nos EUA, por exemplo, nem é necessário fazer essa reivindicação. Tendo em seu sangue, você é negro e pronto”.

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Portanto, Antônio Carlos conclui que essa definição, por ser mais “fácil” nos EUA, e ser vista, não só pelo ponto de vista do próprio indivíduo, mas também pelo ponto de vista legal, “é possível organizar a sociedade a se estruturar contra o racismo e a segregação de forma muito mais eficaz”.

 

Para ele, por olharmos a miscigenação de uma forma mais amenizada e ignorarmos, na grande maioria do tempo, o processo de crueldade contra o negro e o próprio mestiço, criamos a falsa ideia de que aqui em nosso território possuímos a chamada “democracia racial”.

 

“No Brasil, desde sua colonização, o preconceito racial contra o negro e o índio sempre existiu e se apresentou de forma extremamente violenta, mas a partir de construções históricas como as leis de embranquecimento, passamos a ter o mestiço ou pardo, como um símbolo de diminuição da população dessa raça considerada ‘inferior’”, diz o especialista.

 

Ou seja, desde então, foi construído um cenário em que o racismo se apresenta de forma velada. Pessoas mestiças e pardas, que em qualquer parte do mundo são consideradas como negras, não se veem a partir dessa ótica. De acordo com Antônio Carlos, possuem de forma mais amenizada “o revide de povos negros em relação ao grupo do dominador (do homem branco) e faz com que tenhamos essa compreensão menos objetiva de quem somos”.

 

Fica fácil, a partir disso, poder compreender o que o filósofo Clodoaldo Arruda quis dizer no início da matéria, quando afirmou que “não existe uma matiz de cor para definir quem é e quem não é e o que existe no Brasil é um esforço em não se reconhecer isso e essa questão está diretamente ligada ao racismo estrutural”.

 

Relembrando ainda o depoimento de Clodoaldo, quando afirmou que, em sua opinião, “tratar a negritude como se fosse algo opcional, é algo errado”, podemos trazer para a discussão o caso de um jovem que optou por acreditar que sua mestiçagem representa uma bandeira a ser levantada.

Colorismo

A militância e o colorismo

Matheus Pinheiro, 20 anos, estudante de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), realizou a entrevista já reivindicando muito bem seu papel de homem negro, bem como Antônio Carlos pontuou. Com um turbante em um tom vermelho vívido e suas unhas pintadas de preto, Matheus representa, logo de cara, sua militância estampada.

 

Quando contou a história de sua família, Matheus começou definindo que era “cada um, um pedacinho do Brasil”. Primeiro, contou sobre sua linhagem vinda do lado de sua mãe, que conta com boa parte de familiares vindos dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os fenótipos deste lado da árvore genealógica são de negros de pele mais pigmentada.

Já o lado de seu pai, que explica o tom de pele mais claro do jovem, é oriundo de indígenas da região da Ilha de Marajó, situada na Área de Proteção Ambiental do arquipélago do Marajó, no estado do Pará.​ Porém, Matheus não tem certeza​ sobre o povo indígena ao qual descende. 

 

Ainda para acrescentar mais mistura à sua identidade, sua bisavó por parte de pai é portuguesa, branca, com olhos verdes e cabelos loiros.

 

Em censos, Matheus se auto-declara como preto, mas sempre que pode, usa outra classificação: afro-indígena. 

 

Ele conta como formou sua consciência negra e deixou de se auto-declarar como pardo, para preto, a partir de um processo de aproximação da militância.

“Quando eu passei a me aproximar dos movimentos, isso na época do ensino médio, em que as ocupações dos secundaristas estavam bem fortes, eu passei a tomar mais conhecimento desse lado político e as minhas definições ficaram muito mais óbvias para mim”.

 

Ele conta como sempre teve seu corpo de tom marrom “marcado”, e notava diferenças entre ele e seu irmão, que apesar de ser só um pouco mais claro, possuía cabelo liso e muitas vezes se identificava como branco.

 

"Mas eu não entendia o porquê de eu ser considerado moreno ou pardo e ele, não. Qual era essa diferença entre nós dois? E o que eu ouvia era que o meu cabelo era ‘ruim’, e eu me senti mal, cheguei até a alisar o cabelo"

 

Mateus ainda relembra situações que vivenciou, mesmo antes de saber o que era racismo: “Na escola, a ‘zuação’ era sobre como eu era Toddy ou Nescau e sim, eu sabia que eu era diferente, que eu não era branco... mas só fui compreender o porquê de todas aquelas coisas acontecerem depois que eu passei a compreender o que era o embranquecimento, racismo e estar na militância.”

 

A questão do cabelo, já permeada nessa reportagem, entra como ponto divisor quando falamos sobre identidade racial.

 

Muitas vezes, a formação dos cachos ou não de alguém, pode ser a característica definitiva para a ótica de outros em relação a negritude.

Colorismo

Diga-me o seu tipo de cabelo e te direi quem és...

Luanda Mayra Chaves Teixeira, de 20 anos e estudante de Ciências Sociais na FESPSP, viu de perto como o formato de seu cabelo mudou toda uma forma de enxergar o mundo.

 

Luanda é a única pessoa de tonalidade mais clara, em um âmbito familiar em que praticamente todos de sua árvore genealógica possuem tom de pele retinto.

 

“Sou filha biológica e, logicamente, devo ter herdado algo de meus ancestrais que eram mestiços, mas como eu vim de um lar que em sua essência já possuía a consciência e a resistência negra, isso nasceu naturalmente em mim”, relata.

 

Apesar de ter estado a vida toda ciente de sua negritude, Luanda passou por um período em que tentou passar por processos que, segundo ela, são de embranquecimento, como alisar os cabelos e abdicar do uso turbantes.

 

Quando o fez, viu como um único traço poderia ser capaz de mudar toda a sua vivência.

 

“No período escolar eu queria me igualar e por ter uma pele mais clara, eu sentia que eu poderia estar mais próxima às minhas colegas de classe brancas, ‘bonitas’”, confessa.

Luanda afirma que sempre esteve ciente da impossibilidade de ser considerada branca, mas ser negra, aos nove anos de idade, num ambiente predominantemente branco, era muito difícil. “Pela minha ótica, isso nunca teve interferência na minha classificação. Sou uma mulher negra. Mas ao alisar os cabelos, a coisa já ficou um pouco diferente.”

Com a concepção de que a negritude era uma coisa ruim, alisar os cabelos colocou Luanda numa posição em que as pessoas não a enxergavam “tão negra assim”.

 

“Eu sabia identificar meu espaço. Sabia que eu jamais seria uma mulher branca. E claro, existe sempre aquela coisa: em lugares em que a predominância era negra, eu não era tão escura e em lugares em que a predominância era branca, eu era preta”, descreve.

Luanda conta como a vontade de ser alguém que não era, prejudicou tudo aquilo que havia aprendido em casa, classificando a situação como um "golpe" de identidade. 

“Eu queria me encaixar. Só isso. Mas percebi com o tempo, que essa minha não aceitação, só prejudicava a mim e à minha luta.”

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Quando começou o processo de transição capilar e resolveu deixar os cabelos naturais, a estudante passou a perceber como a negritude estava voltando a ser enxergada, por terceiros e por si própria.

 

“Foi aí que o meu cabelo falou por mim. Na transição, o cabelo fica metade cacheado e metade liso e o quê eu mais ouvia era como estava sendo ‘desleixada’, que uma moça de respeito não andaria daquele jeito e o melhor era alisar, para ficar mais ‘arrumado’”, ela conta.  

 

“Mas esses apontamentos foram bem necessários para minha identificação como preta, não parda... e também me ajudaram a perceber quanto o meu cabelo está ligado à minha resistência”.

 

Assim como Ione e Amanda, Matheus e Luanda foram questionados sobre a auto declaração e a afirmação como pretos dentro do movimento social.

 

Luanda conta como “perdeu amizades” tentando explicar para pessoas que já possuíam uma percepção pré-concebida do que é ser negro. Para ela, era difícil entender que sua identificação não era óbvia, porque sua negritude está atrelada a muito mais pontos do que apenas seus traços mestiços.

 

O mesmo aconteceu com Matheus, porém em âmbitos de resistência do próprio movimento negro. “Eu já fui muito questionado nesses espaços, que para mim, deveriam ser um espaço de acolhimento e de entendimento sobre como o movimento negro lutou por tanto tempo pela inclusão dos pardos como negros.”

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