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Classificações e raças

Aquarela brasileira

“Aqui somos mestiços, mulatos, cafuzos, pardos, mamelucos, sararás, crilouros, guaranisseis e judárabes […] somos o que somos, somos inclassificáveis”.

O trecho é da música “Inclassificáveis” composta e interpretada por Arnaldo Antunes, em 1996. Mais de 20 anos depois, a letra ainda faz sentido para milhares de brasileiros que não conseguem dizer com exatidão uma característica simples: sua classificação de raça.

 

Em muitos casos, essa incerteza na classificação racial pode trazer sérios problemas de identidade, reforçar o preconceito e até causar dificuldades em pontos básicos, como a educação e relacionamentos interpessoais.

Em censos, questionários e formulários que analisam e relatam sobre a identidade racial do brasileiro, cinco são as categorias apresentadas: branco, preto, pardo, amarelo ou indígena. Essas cinco categorias, usadas para classificar as relações étnico-raciais existentes, revelam um traço importante do país: a sua diversidade.

É muito possível que você conheça um ou dois casos de pessoas que se autodeclaram em uma das categorias citadas, porém são vistas, por parte da sociedade, de outra forma. Isso é muito comum entre os chamados “mestiços”, pessoas que são frutos, diretos ou indiretos, de relacionamentos inter-raciais (que são definidos pela reprodução entre duas raças ou mais).

 

A produtora de eventos Ione dos Santos Nadu , de 36 anos, sabe muito bem como é a situação: autodeclarada como mulher negra, ela acredita que seus cabelos crespos, seu nariz mais largo e seus traços claramente africanos deveriam ser o maior indicador de sua origem e categoria predominantes. Só que nem sempre foi assim. Ione tem um tom de pele mais claro, quase bege, e essa peculiaridade levantou muitos conflitos em sua vida. 

“Não sabia quem eu era, até que um dia me disseram: ‘ninguém nunca te avisou que você é negra? ’ e eu percebi que eu só tinha a pele mais clara, mas meu cabelo, minha boca e meu nariz eram de uma mulher negra. Afinal, tinha uma família predominantemente baiana e mineira, a maioria negra e indígena (...) me reconhecer como negra me fez me aceitar como eu era. Não era mais parda, ou com um ‘pé na senzala’... Eu era uma mulher negra”.

 

O caso de Ione exemplifica como essa definição por tom de pele pode ser ambígua, mas deixa a dúvida: como diferenciar a ancestralidade do indivíduo e a sua raça? A miscigenação brasileira tem como base indígenas, negros e brancos, entretanto todos que possuem em sua árvore genealógica pessoas dessas categorias são considerados automaticamente como indígenas, negros e brancos? ​

 

O Estatuto da Igualdade Racial define como população negra "o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam auto definição análoga”.

​O professor e historiador Carlos Eduardo Dias Machado, observa que o Brasil é um país de grande miscigenação, e é exatamente por isso que a discussão sobre raças é complexa. “Somos 99,9% semelhantes e esse 0,1% de diferença tem a ver com a adaptação dos humanos a diversos tipos de ambiente do planeta”, explica.

De acordo com o professor, a construção da ideia de raça foi implantada por “povos brancos de antigamente e isso, para benefício próprio”. Segundo ele, “precisamos evoluir muito no que concerne respeitar uns aos outros quando falamos sobre essa questão de ‘qual é a sua etnia? ’”.

Eu era branca demais para ser negra e preta demais para ser branca

Ione Nadu dos Santos

Vamos por partes...

Afinal, o que é raça?

Em resumo, com surgimento no século XVI, o termo raça foi usado para relacionar traços físicos dos humanos. Porém há muito mais complexidade por trás desse termo, pois sua origem exata é obscura. O Instituto Geledés afirma em um artigo que para alguns estudiosos ela vem da palavra latina “radix”, que significa raiz ou tronco; outros acreditam que ela tem origem na palavra italiana “razza”, que significa linhagem ou criação.

A biologia e a antropologia física criaram a ideia de raças humanas, que diz que a espécie humana poderia ser dividida em subespécies, assim como no mundo animal. Essa divisão estaria associada ao desenvolvimento diferencial de valores morais, de dotes psíquicos e intelectuais entre os seres humanos.

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Desde então, vários trabalhos derivados da ideia de raças diferentes entre a espécie humana foram concebidos, de modo que, enquanto alguns autores distinguiram quatro ou cinco raças, outros chegaram a especificar mais de 20.

Mas se existe confusão na definição da palavra “raça”, por que ainda existem censos populacionais baseados nesses conceitos e por que ainda discutimos questões raciais em pleno século XXI?

Apesar de a maioria de cientistas negá-lo, o termo “raça” não desapareceu totalmente do discurso científico e, principalmente, ainda não desapareceu de todos os discursos que insistem em explicar a vida social.  

A discriminação racial existe e é uma realidade no Brasil e no mundo.  Tal discriminação tem base na questão da diversidade e, dentro dela, as escalas de cor e tonalidade da pele possuem grande relevância. Logo, para mensurar os problemas causados na sociedade pela discriminação racial, os censos são de grande importância na análise desses fenômenos sociais.

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De acordo com o cientista político e atual pesquisador do IBGE, Leonardo Athias, em sua mais recente pesquisa “Investigação étnico-racial no Brasil: entre classificação e identificação”, de 2018, “a identificação étnico-racial é uma interação social e socialmente construída, está carregada de subjetividade, pois é uma maneira de se perceber e perceber os outros. Trata-se, finalmente, de um fenômeno que é influenciado por diversos fatores, uns ligados à história individual, outros ao contexto da classificação".

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Como dito no início da matéria, atualmente são cinco categorias usadas por fundações como o IBGE para seus censos populacionais, e não deve ser novidade para ninguém que essas nomenclaturas não são o suficiente para classificar todos os tons de pele existentes no Brasil.

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Então, uma forma correta para que esse tipo de pesquisa pudesse ocorrer, seria expandir as possibilidades de classificação dos brasileiros.

 

Certo? ​Talvez não 

De acordo com Edmar José da Rocha e Fúlvia Rosemberg, no artigo “Auto declaração de cor e/ou raça entre escolares paulistanos (as)”, existem três modos de classificação racial: o modo oficial (usado pelo IBGE), o popular (retratado por uma grande quantidade de termos que descrevem raças e cores) e o binário (que é um sistema de classificação com apenas dois termos – brancos e não-brancos).

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Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio de 1976 do IBGE, não foram dadas opções de classificação de cor quando perguntaram aos participantes sobre sua raça, usando então o modo popular. Das 136 opções dadas na época, nenhuma parecia cientificamente concreta.

Abaixo, alguns exemplos das definições apontadas na pesquisa de método popular:

Ainda segundo o professor Carlos Eduardo, a questão das diversas tonalidades de pele não interfere em nada na etnia de cada um, principalmente em relação aos negros, que formam o grupo que mais gera conflitos de critérios quando falamos sobre auto declaração racial.   “A humanidade evoluiu no continente africano há aproximadamente 315 mil anos. Os povos africanos não são todos de uma só cor e no senso comum brasileiro, existe o ideal de que o negro é aquela pessoa de último tom de pele”, explica.

Há, de fato, uma diversidade de cores, que vão desde o negro mais “escuro”, ou seja, mais “retinto” vindo da região da linha do Equador, Sudão do Sul, Nigéria e entre outros, até ao povo mais claro, como, por exemplo, os Khoisan ou Khoi-San. Carlos Eduardo os classifica como “o povo mais antigo do planeta terra”, que deu origem aos asiáticos e indígenas, pois possuem traços asiáticos, como olhos puxados e rosto mais “amassado”. É um povo inicialmente considerado negro e não é porque possuía a tonalidade mais clara, que deixou de ser considerado como tal.  

 

É importante ressaltar que a ideia da existência de uma “raça negra” é ​mitológica, pois os negros não são da mesma raça ou grupo étnico e diferem-se entre si de várias formas. Em relação à tonalidade, pode-se observar que existe o tom de pele mais “avermelhado”, o mais marrom, o mais puxado para o bege e etc. Quando a miscigenação entra nesta equação, o resultado mostra que é praticamente impossível falar em “negros” simplesmente como se fossem classificados por apenas algumas características exclusivas.

 

Socialmente falando, todos nós temos a necessidade de fazer parte de um grupo, de fazer parte de algo. É aí que a identificação racial se faz presente. Mas quando falamos sobre uma classificação em específico, a negra, fica quase que impossível pensar nessa questão sem atrelá-la ao racismo.

Negros são, afinal, a parcela populacional que mais sofre preconceito racial e estão constantemente sendo deixados à margem da sociedade.

Para a classificação racial negra, há muito mais do que o senso estético – o reconhecimento do negro no Brasil está ligado diretamente ao senso de sobrevivência, de consciência e de resistência.

E não é para qualquer um, não

No Brasil, “se assumir negro” é algo extremamente difícil. O filósofo e rapper Clodoaldo Arruda é taxativo ao analisar a questão: “o ‘preto’ no país é pobre, é feio, é o alvo que a polícia quer... Tratar isso como se fosse algo opcional, é algo errado”.

Ele ainda acrescenta que “a consciência negra não veio da necessidade estética” e o negro, seja ele de pele escura ou clara, se assume ou se descobre como tal, para tentar entender aspectos como “o porquê um homem negro tem 4 vezes mais chances de ser morto a tiros que o homem branco”.

Em relação à tonalidade, Clodoaldo afirma: “não existe uma matiz de cor para definir quem é e quem não é – quem é sabe. Ponto. O que existe no Brasil é um esforço em não se reconhecer isso e essa questão está diretamente ligada ao racismo estrutural”.

 

Para ele, o negro que não se “reconhece”, que não possui sua consciência, não está alheio. “A negritude está dentro de cada pessoa de cor, por mais enterrada que essa expressão possa estar dentro delas, a questão toda é descobrir como isso ascende dentro de você”.

Voltando para o caso de Ione, ela diz que o dia em que “se reconheceu como negra”, de fato, fez toda a diferença: ​ “Eu não buscava mais estereótipos de pessoas que não pareciam comigo na mídia e na televisão; parei de alisar o meu cabelo e isso aumentou consideravelmente a minha autoestima e o modo como eu me enxergava. Comecei a militar, a mudar o mundo ao meu redor e a combater situações de racismo com as quais eu lidava todos os dias. Eu, Ione, me tornei outra pessoa”, declara.

Ela reconhece que, nesse momento, o fato de ter a pele mais clara deixou de ser uma “questão” para ela e passou a ser uma “questão” para o mundo. 

 

“Você não é tão negra assim”, passou a ser a frase que ela mais ouvia ao se autodeclarar.

Quando alguém se classifica como preto, automaticamente, se presume que aquela pessoa é da raça negra. Mas, quando falamos sobre os mestiços ou pardos, a coisa muda um pouco de figura. Para elas, a definição de raça pode ser muito complexa, pois são pessoas que em muitos casos podem ser vistas como brancas ou negras, dependendo do contexto.

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